Leitura Extra: "Disney era mandão", diz dublador

Para promover o lançamento do DVD de “Pinóquio: Edição Platinum“, a Disney preparou uma matéria especial divulgada pelo site do Estadão, onde Dickie Jones dublador original do personagem Pinóquio lembrou como foi emprestar sua voz de criança ao personagem, a quase 70 anos atrás. Confira abaixo a matéria completa:


“Disney era mandão”, diz dublador

Aos 82 anos, Dickie Jones lembra como foi emprestar sua voz de criança ao personagem Pinóquio, no filme que faz 70 anos


Texto: Luiz Carlos Merten
Quarta-Feira, 08 de Abril de 2009


Walt Disney passou à história como o artista que fez avançar a animação tecnicamente e também provou sua viabilidade como projeto comercial. Foi um visionário que construiu parques temáticos e deixou sua marca no cinema de aventuras e no musical. Se o entretenimento era familiar, interessava a Disney. Esse é um lado da moeda. O outro é que ele foi um grande reacionário, um republicano ferrenho e anticomunista de carteirinha, cuja fama é de ter colaborado com o FBI e o macarthismo. Dickie Jones sabe de tudo isso. Mas o homem que conversa pelo telefone com o repórter do Estado é um velhinho de mais de 80 anos e o Disney de que se lembra foi o que conheceu garoto, no fim dos anos 1930, quando foi escolhido para emprestar sua voz a Pinóquio. “Ele (Disney) era adorável. Autoritário, mandão, mas sabia fazer com que as pessoas se sentissem à vontade sob sua asa.”

Pinóquio, a animação, está para completar 70 anos. O livro famoso de Carlo Collodi, em que Disney e seus animadores se basearam, é muito mais velho. Data de 1883. O DVD Pinóquio chega hoje às lojas, com um monte de extras que retraçam a história da animação e mostram como o filme foi feito. Mas o mais importante é o próprio desenho. Ao longo de sua carreira, Disney produziu filmes que marcaram época – criou Mickey, Pato Donald, Branca de Neve e os Sete Anões, Vinte Mil Léguas Submarinas e Mary Poppins. Após sua morte, o estúdio continuou se modernizando e produzindo novos clássicos, dos quais o mais belo é O Rei Leão, mas o velho Walt talvez não se conformasse com o fato de um desenho produzido por uma empresa concorrente – Shrek, da DreamWorks – tenha se transformado no maior sucesso do negócio que fundou.

Isso é mera especulação, pois o importante é ressaltar a extraordinária qualidade, inclusive técnica, de Pinóquio. Críticos e historiadores como Danny Peary sustentam que é, de longe, a animação mais perfeita da Disney. Sem as ferramentas que a digitalização coloca hoje ao alcance dos animadores, os diretores creditados de Pinóquio, Ben Sharpsteen e Hamilton Luske, construíram cenas imortais – basta prestar atenção nas expressões faciais do boneco falante quando ele fuma. Dickie Jones lembra-se como foi cansativo dublar a cena. No começo, era divertido – ele, um garoto, nos puritanos e repressores EUA de 1939, simulando uma transgressão. A cena foi repetida tantas vezes que lá pelas tantas ele não sentia mais graça e se engasgava com a própria simulação.

Filho de um editor de jornal, Robert, também chamado de Dick e, depois, de Dickie Jones, nasceu no Texas, em fevereiro de 1927. Aos 4 anos, já cavalgava, sendo considerado o ginete mais jovem do mundo. Aos 6, cavalgava e laçava como astro mirim nos espetáculos do astro de rodeios Hoot Gibson, que convenceu os pais do menino de que seu lugar era em Hollywood. Ele apareceu em numerosos filmes da série Our Gang e também em Um Benemérito (A Man to Remember), a elogiada estreia do roteirista Garson Kanin na direção, em 1938. Hoje, o filme parece datado, mas fez sensação e levou o garoto Dickie Jones ao papel do encrenqueiro Killer Parkins, em Nancy Drew. Numa cena particularmente divertida para o público da época, Dickie imitava Donald Duck, o Pato Donald. Disney quis conhecer o fenômeno e terminou contratando o artista mirim para que fornecesse a voz para um novo e ambicioso desenho que pretendia realizar, e era Pinóquio.

Dickie lembra-se das intermináveis sessões em que posava para os desenhistas do estúdio e também dos testes de voz. Ele praticamente passou a morar no estúdio. Disney sumia por semanas inteiras, mas de repente aparecia de imprevisto e era o maior corre-corre para atender o grande homem, sempre querendo as coisas para ontem. Dickie faz uma análise pertinente de Pinóquio, em relação a Branca de Neve, de 1937. “Lá, a protagonista, além de ser menina, faz o rito de passagem. Pinóquio, o boneco que quer ser gente, é o traquinas que amadurece. Branca de Neve precisa fugir de casa; ele se esforça para regressar.” Marcado como Pinóquio, Dickie Jones prosseguiu na carreira e fez a série The Range Rider, com 76 episódios, em 1951, quando a TV se estabelecia e roubava o público de Hollywood. Em 1965, fez seu último filme – um pequeno papel em Réquiem for a Gunfighter, western de Spencer Gordon Bennett. Virou empresário, no Texas. Aos 82 anos, tem às vezes a impressão de que suas memórias de Hollywood pertencem a outra pessoa. Mas os filhos e, agora, os netos não lhe permitem esquecer que foi Pinóquio. Até hoje lhe pedem que faça imitações. O repórter lhe diz, e não para agradar, que Pinóquio é a maior animação da Disney. “Oh, thank you, how nice to say that.” Para ele, é agradável ouvir o cumprimento. Para o cinéfilo, o filme que sai em DVD comemorativo é um marco.

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